Viajar sozinha foi a minha cura.
- Wanja

- 19 de mai. de 2020
- 8 min de leitura
Atualizado: 4 de out. de 2022
Em 2014 eu perdi a pessoa que eu mais admirava na vida, a minha mãe. Minha mãe era o meu esteio emocional e perde-la foi uma dor inenarrável, fiquei totalmente perdida e sozinha. Eu estava com 38 anos e ela com 64, tínhamos um longo caminho juntas pela frente, mas a vida é como tem que ser.
Em menos de um ano depois, engravidei de gêmeos no início de um relacionamento. Com quase três meses de gestação perdi os bebês e terminei o namoro. Foram perdas irreparáveis e difíceis de digerir. Imagina perder sua mãe e seus bebês em menos de um ano? Foi no mínimo confuso.
Para completar, no início da gravidez, tive um acesso de estresse e pedi demissão do meu trabalho em uma das produtoras que mais amei trabalhar, cujos donos são amigos queridos e me deram muita força ao longo da doença da minha mãe. Minha eterna gratidão!
Depois desse furacão eu precisava repaginar a minha vida. Um dos meus melhores amigos de infância, Fernando Blumer, que infelizmente nos deixou esse ano, por conta de uma leucemia, me conhecia muito bem e vivia me incentivando para ir morar em Jericoacoara, onde ele já morava por mais de uma década, encontrou sua esposa e teve uma filha linda. Ele vivia dizendo que o lugar era a minha cara e que eu precisava ao menos conhecer a vila.
Não tive dúvida, chegou a oportunidade e era hora de me renovar. Larguei tudo para trás, deixei minha gatinha com amigas e parti para uma das minhas mais incríveis viagens, na verdade foi a minha cura. Escolhi a data de aniversário da minha mãe para conhecer o paraíso, onde iria orar e emanar as melhores das vibrações para a pessoa mais importante da minha vida.
Quando se perde alguém tão próximo, você muda automaticamente. Lidar com a morte é sempre um aprendizado, principalmente se você vivencia todo o processo da perda. As mudanças são notadas em pequenos detalhes e foi fazendo a mala que percebi o meu desprendimento.

Sempre gostei de moda e minhas malas eram generosas quanto às opções de vestimentas, mas dessa vez queria ser diferente. Sabia que Jeri era uma vila de areia, eu ia de avião para Fortaleza e de lá pegaria ônibus. Seria uma viagem cansativa e econômica, optei por levar uma mochila e uma malinha pequena de mão, então fui muito precisa nas escolhas. Pode ser bobagem para algumas pessoas, mas lembro-me de ter me orgulhado da minha atitude.
Jericoacoara é uma vila rústica e paradisíaca que fica no município de Jijoca de Jericoacoara, a 300 km a oeste de Fortaleza, no estado do Ceará. O lugar é todo em areia, foram 11 maravilhosos dias sem colocar um sapato, apenas Havainas. Hoje em dia existe a opção de ir para lá direto de avião, mas na época as opções eram ônibus ou 4X4 que tinha um custo muito alto para mim.
A minha energia depois dessa decisão estava tão boa que na viagem de ônibus, já no Ceará, conheci uma pessoa que se tornou uma grande amiga de viagem. Fomos papeando até a cidade de Jijoca, chegamos já era noite e tivemos que pegar uma jardineira, uma espécie de transporte que nos levaria para Jeri no caminho da areia fofa.
A aventura de chegar à vila não poderia ter mais emoções, no meio do caminho o transporte enguiçou e foram alguns longos minutos de espera, mas a noite estava linda e estrelada e ninguém que vá à Jericoacoara tem o direito de se irritar. Eu e Sue esperamos pacientemente entre papos e risadas até a próxima jardineira chegar. Conhecemos outros passageiros e logo já estávamos a caminho novamente do nossos destinos.

A Sue ficou numa pousada diferente da minha e como eu precisava de um tempo sozinha, combinamos de fazer alguns passeios dois dias depois. Fiquei numa pousadinha super agradável de um amigo do Fernando chamada Senzala. O dono era uma figura! Existia uma copa na área externa do estabelecimento que ele liberava para o uso dos hóspedes. Lá aprendi a fazer vatapá e tomei alguns vinhos deliciosos com empresários locais, amigos do dono da pousada, todos muito gente boa e com suas famílias, em um clima extremamente familiar.
A minha primeira noite foi inesquecível, mesmo exausta da viagem que havia começado às 3h da manhã, eu estava louca para sentir o clima do lugar. Soube de um Reggae que aconteceria próximo ao hotel, em uma padaria, genial! Como não amar Jeri! Tomei um banho coloquei meus chinelos e fui sozinha tomar uma "cerva" porque eu realmente merecia.
Lá fiquei, sem dar muito papo para ninguém, não estava no clima de socializar ou ficar "doidaraça", muito menos de azaração. Amo reggae, os meninos da banda eram incríveis, senti o ritmo e logo a vibração do lugar penetrou a minha alma.
No dia seguinte era aniversário da minha mãe, eu já sabia de cór como era a vila de tanto o Fernando falar e mandar fotos, então não teve muito mistério. Fui à praia de Jeri, onde tem duas opções de caminhada para chegar à famosa Pedra Furada. Era meado de agosto e lá o sol ainda se punha por trás do buraco de uma grande pedra. Em setembro não daria mais para ver o fenômeno.
Tomei um banho de mar e fui caminhando para as praias vizinhas. Numa delas que estava totalmente vazia, deitei entre a areia e o mar, me energizei e orei para minha mãe. Foi lindo, me emociono só em lembrar.
Um pouco mais tarde por força do destino, conheci um casal que estava com um guia local indo para a Pedra furada, depois de um curto papo, eles me convidaram para acompanha-los, paguei uma parte do passeio ao guia e fomos. A partir de então a ida para a Pedra Furada virou o meu exercício diário. O guia me mostrou a opção de ir pelas Dunas e todos os dias, exceto os dias de passeios, eu ia sozinha me deliciar naquele visual.

Depois desse dia resolvi fazer os contatos, avisei ao Fernando e Wanessinha (sua esposa) que eu havia chegado e combinei os passeios com a Sue. O Fernando era um puta guitarrista e instrutor de Kitesurf e Wind. Fechei um pacote de aulas com ele e fui prestigiá-lo em algumas noites da viagem no ZChopp, onde ele tocava rock. Meu amigo, você fará muita falta!

Os passeios com a Sue foram incríveis, cada uma estava passando por seus dilemas e naquele momento acredito que fomos muito importantes uma para outra. Foram momentos divertidíssimos e vários pores do sol em cima da principal Duna de Jeri onde todos se reuniam para apreciar um verdadeiro espetáculo da natureza. Fui quase todos os dias da minha estadia ver essa maravilha que meus olhos não cansavam de admirar. Tornou-se o meu ritual.


Minhas aulas com o meu amigo já não tiveram tanto sucesso, no primeiro dia de treino, no final da aula, escorreguei da prancha, estávamos no raso e torci feio o meu pé, imagina torcer o pé em um lugar feito de areia e sem assistência médica?
Sou rainha em torcer o pé nos primeiros dias em viagens, já estou acostumada, ainda falarei sobre outro episódio em Campos do Jordão aqui no Blog. Passei alguns dias com uma tala de esparadrapo que eu mesma fiz, coloquei gelo, descansei o pé por dois dias e continuei minha jornada, mas para o windsurf ficou mais difícil e acabei renegociando o valor do curso.

Fizemos um passeio na praia do Preá, a praia do Kitesurf, próxima à vila. Eu cheguei a pensar em abrir um Bar do Rock lá, mas acabei desistindo da ideia porque achei muito deserto ao redor das pousadas. Ainda fechei com ele umas caronas para praias e lagoas vizinhas nos dias que fiquei sozinha depois que a Sue foi embora.
Os dias foram passando e o Fernando me convencia cada vez mais na ideia de me mudar para lá. Começamos a trabalhar em um projeto muito legal de marketing e em algumas possibilidades, fui ver umas casas, peguei contatos, conheci um pessoal local e a minha cabeça começava a pirar com a grande novidade.
A cada dia que passava eu enriquecia a alma, emagreci 3kg por conta das caminhadas e fortaleci as pernas. A minha alimentação ficou por conta de uma moça que vendia galinha caipira de carrocinha a qual fiquei viciada! Comia sempre que estava sozinha sem a companhia da minha mais nova amiga Sue, ou do casal de amigos queridos. Os lugares que visitei me traziam paz e um misto de alento e felicidade, não era preciso nenhum tipo de alucinógeno para se sentir em êxtase e assim dava andamento ao meu processo de cura.


Ir embora de Jeri foi uma tarefa muito difícil, cheguei a adiar três dias a minha partida, mas eu tinha uma gatinha esperando por mim e precisei voltar. Estava decidida, ia chegar em casa, arrumar minhas coisas, pegar a minha gata e retornar para Jeri. Essa sem dúvida tinha sido uma das melhores viagens da minha vida.
Cheguei ao Rio com outra cabeça, anunciei à todos a minha partida, aceitei um Job de seis meses para juntar uma grana (sou autônoma, produtora de audiovisual e fechava trabalhos por projetos), tempo o suficiente para me organizar, mas de repente tudo mudou.
Eu queria ficar um ano em Jeri e para isso precisaria alugar o meu apartamento. Eu tinha conseguido uma pessoa que precisava exatamente disso, um lugar por um ano, parecia um sonho até que houve uma enorme crise econômica no começo de 2015 e várias pessoas foram demitidas.
Eram demissões em massa, um verdadeiro tsunami da economia. Soube que em uma emissora, o pessoal apelidava as demissões de barcaça, o mistério era saber quem iria na barca da vez. Eram 60, 70 pessoas dispensadas em cada empresa no Rio.
Eu já estava ajeitando a mudança quando a pessoa que alugaria meu apartamento desistiu por medo de ser demitida e a minha sala empresarial onde funcionou a minha antiga agência de eventos, foi devolvida. O meu inquilino foi fazer home office e eu tive que assumir mais uma despesa, o caro condomínio do imóvel. Fiquei quase um ano com esse custo extra até conseguir um novo inquilino, nunca foi tão difícil, que crise! E pensar que ainda vamos passar por outra crise pós-pandemia agora em 2020. Deus nos ajude!
Mas olha como a vida se mostra! Meu sonho daquele momento foi desfeito, em compensação, eu, já com uma cabeça bem melhor, mais segura e experiente, em meio à tantas transformações, conheci alguns meses depois o grande amor da minha vida com quem casei e ganhei uma enteada querida, o mais próximo de uma filha que poderei ter.
Depois de perder meus bebês e a minha mãe, decidi que nunca mais pensaria em ser mãe novamente. Eu já não queria ter filhos antes da gravidez e depois de tantas perdas, preferi a liberdade, e Deus acabou me mandando essa mocinha muito especial.
No início foi complexo e árduo me acostumar com essa ideia de mãedrasta, uma nova batalha, mas esse é outro processo de evolução que ainda vou me estender aqui no blog em outro episódio.
O fato é que o dia a dia é tão corrido que muitas vezes não acreditamos no poder de ter um momento consigo mesmo e conhecer outros universos. Jeri foi uma das coisas mais incríveis da minha vida, um respiro e um sopro para que eu pudesse continuar a minha jornada, enxergar e valorizar o grande tesouro que estava para entrar em minha vida.
Viajar sozinha para o lugar certo, na hora certa, para mim foi um verdadeiro processo de cura!
Outro dia ouvi uma frase da minha terapeuta que me impactou e faço questão de compartilhar, ela me disse: "Aproveite o processo!", então espero que esse artigo possa inspirar tantas outras pessoas que estejam passando por momentos difíceis e tenham a necessidade de se reciclar. Boa viagem e boa sorte!






























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