O que você falaria para a sua criança se a encontrasse por cinco minutos, no passado?
- Wanja

- 26 de jul. de 2021
- 4 min de leitura

Essa sou eu aos cinco anos de idade. Não me lembro de jeito nenhum onde era, provavelmente em algum lugar ao redor do mundo que eu fui com a minha mãe à trabalho. Fiquei um tempão paquerando essa foto. Me lembro quando achei o "cajado" e posei para o clique que eternizou esse momento de felicidade.
Essa foto representa um lado meu muito forte, uma garota alegre, aventureira, destemida e inocente. Pois é... lá no fundo, eu ainda acredito nas pessoas, e acredito na minha inocência que trago desde a infância. Ainda caio em alguns contos de fada e floreio, por que não?
Olhando para a foto me perguntei: Se eu pudesse entrar numa máquina do tempo e me encontrar com a Wanja criança, por apenas cinco minutos, o que eu falaria?
Afinal eu teria agora 40 anos a mais do que essa garotinha. Foram tantas porradas, decepções, alegrias, oportunidades e fracassos. São tantos assuntos: relacionamentos, família, amigos, trabalho, traições, fé... o que falar em tão pouco tempo, sem que ela se assuste e saia demais do seu caminho?
Isso ficou martelando na minha cabeça e por horas refleti. Pensei nos meus acertos e descartei esses itens. Afinal, os acertos devem ser repetidos! Pensei em meus erros, minha inocência e a solidão a qual aprendi a conviver, mesmo estando sempre rodeada por amigos e família. Só eu sabia a dor da rejeição paterna e a ausência continua da minha mãe que precisava viajar mais da metade do mês por conta do trabalho na aviação.
Nesse mesmo momento agradeci, porque a cada ausência necessária da minha mãe, eu me entregava ao relacionamento de neta e assim aprendi a ter apreço pelas pessoas mais velhas e respeitar suas histórias. Então descartei a pouca ausência materna, apenas a alertaria sobre algumas dificuldades no processo de construção, mas ela iria passar por essa, seria moleza.
Mas a rejeição paterna me trouxe algo muito obscuro. A benevolência que tinha com os relacionamentos, afinal não tive bons exemplos de casais. Amava meus avós, mas eles brigavam como cão e gato, e a mamãe tinha tanto medo de pedofilia que abriu mão de se casar por minha causa. Mal soube ela que acabei sofrendo abuso por um colega de trabalho, nunca tive coragem de contar.
Um assunto que não costumo falar, mas que depois de muitas décadas e terapia, ficou bem resolvido. Hoje me arrependo profundamente de não ter tido coragem de botar a boca no trombone, mas eu era tão nova... devia ter uns 8 ou 9 anos e naquela época sem internet, éramos ainda mais infantis e vulneráveis. A pedofilia é uma covardia! E olha que o meu caso não foi dos piores, mas um dia me estendo sobre esse assunto, acho importante compartilhar.
Esse, sem dúvida, seria um alerta a abordar com a pequena Wanja. Depois de rejeição paterna e abuso infantil, os meus primeiros relacionamentos foram desastrosos, já era de se esperar e sem dúvida esse era o assunto que iria abordar.
Sabe, independentemente da criação, ainda acho que as mulheres da nossa geração sempre tiveram uma tendência à sofrência por homens. Seja por uma criação conturbada, ou incompleta como a minha, ou por excesso de mimo, ou pela criação retrógrada que recebemos do paternalismo. Até hoje vejo marcas nas mulheres pela dependência de amor masculino em nossa geração.
E então o meu papo com a Wanjinha me veio à cabeça:
- Oi Wanja, tudo bem? Sou uma amiga que te vi nascer. Vim te falar que a sua vida vai ser boa. A sua infância vai ser linda. Você terá alguns contratempos, ou seja, dificuldades, mas não tenha medo, escute bem o que vou te falar.
Quando você crescer, a sua carreira será muito divertida e não terá rotina. Com certeza, não será uma escolha muito inteligente, mas será compensadora, isso porque a sua estabilidade estará garantida.
Entenda que você vai ser uma mulher muito bem resolvida, mas vai demorar a perceber isso. O processo da vida é longo e crescer dói, mas é uma dor suportável e esclarecedora, não tenha medo, faz parte.
- Crescer dói! Você ainda vai falar muito isso para a sua mãe e ela sempre vai achar graça.
Agora, preste muita atenção aos sinais. Ouça sempre os seus instintos, não meça forças com eles! Faça as melhores escolhas, principalmente nos relacionamentos amorosos. Escolha quem te fizer bem. Não deixa os homens serem abusivos com você. Quando um homem adulto, que se diz amigo da sua mãe, te chamar para comer chocolate, não vá sem a presença de outro adulto!
Quando você fizer a escolha do seu primeiro namorado, não se entregue na opção mais fácil, vai ter um rapaz apaixonado por você no seu colégio, entenda os sinais! Vá com calma, não seja a escolhida, escolha! Você pode!
E se te forçarem a ir à algum lugar que você não se sinta confortável, grite! Não se intimide porque a pessoa é um amigo de uma conhecida que você nunca mais vai ver... A sua maior fraqueza pode estar na falta de exemplos e em sua carência paterna.
No futuro terá algo chamado internet que vai te levar informações incríveis, mas por enquanto, preste atenção às notícias, leia e busque informações em sua juventude. Você será uma jornalista, aproveite melhor essa ferramenta.
De resto, curta! Os babacas existem em todos os lugares. Você vai entender! Pessoas equivocadas às vezes nos machucam, a vida não pode ser tão fácil. Você também vai errar e machucar alguns meninos e homens, não será por querer, machucar faz parte, mas ferir, jamais!!!
E mais uma dica extra no âmbito profissional, não espere reconhecimento, trabalhe e ganhe o seu dinheiro e não largue a sua carreira por ninguém, nem que seja uma opção por se sentir sobrecarregada, não vão reconhecer os seus esforços. Mude se você quiser e planeja seu próximo passo antes de abandonar o primeiro!
As más escolhas acarretam consequências pesadas de lidar, mas olha! A sua vida pode ser mais leve, a escolha é sua, escolha com sabedoria e fuja de quem não te trouxer confiança!! Fuja de quem te ferir! Repito! Fuja de quem não te trouxer confiança!
Do mais, faça! Seja forte, você se basta! Curta o processo que você vai ser muito feliz! A vida é dura, mas quase nunca é tão ruim quanto parece! Você é abençoada por Deus, atraia o que te faz bem! Vai ser feliz!
Assim me despediria em um grande abraço e com um largo sorriso no rosto e voltaria na esperança daquela menina, tão pequena ainda, ter entendido cada recado.
O que você diria para a sua criança se pudesse encontrá-la por cinco minutos?



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