O racismo é brega, ultrapassado e cafona!
- Wanja

- 9 de jun. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 9 de jun. de 2020
Adoro ser mestiça! Sou miscigenada com orgulho, tenho um sinal no pescoço que prova a minha mistura de raças e consigo passar pelos 50 tons de morena. Não da para se calar diante do movimento contra o racismo que aflorou depois dos últimos acontecimentos em plena época de quarentena, e vou falar sobre as minhas experiências. Para mim o racismo é brega, ultrapassado e cafona. Racismo em pleno século XXI é inaceitável, principalmente aqui no Brasil.
Eu sou considerada branca na minha certidão de nascimento, nunca entendi o porquê, acho que nos anos 70 não havia a opção de pardo. Passo por muitas variações de cor, mas nunca me vi branca. A prova disso é que passei por algumas experiências que vou compartilhar com você porque o latino miscigenado também sofre racismo.
A minha mãe era comissária de bordo e por isso, viajei muito para o exterior até os meus vinte e poucos anos. Costumava viajar nas minhas férias escolares, principalmente as do fim de ano que era verão aqui no Rio de Janeiro e como uma boa "rata de praia" chegava ao meu tom mais escuro da morenice. As pessoas no exterior não conseguiam definir a minha raça, sempre me perguntavam se eu era branca ou preta.
Uma vez, viajei para Frankfurt, na Alemanha com a minha mãe e fomos à uma loja de cosméticos. A minha mãe era branca (digo "era" porque infelizmente ela já faleceu), mas nessa época eu era adolescente, surfava e estava muito morena. Assim que entramos na loja, sentimos os olhares entre os seguranças, mas achamos que poderia ser paranoia. Começamos a ver a sessão de batons e foi muito nítido o acompanhamento nada discreto de uma segurança mulher que também me parecia ser latina.
Os batons nas prateleiras não tinham demonstradores abertos, por isso abrimos umas quatro unidades que não estavam lacradas para ver as cores, imediatamente a segurança se aproximou bem perto e ficou nos encarando. Minha mãe que era branca e não me lembro de nenhum episódio dela relacionado ao racismo, ficou tão enfurecida que perguntou para a segurança se ela estava com algum problema, me mandou largar o batom na prateleira, me pegou pelo braço e fomos embora.
Foi extremamente constrangedor e essa foi a pior situação de racismo que passei. Foi tão surpreendente para mim que a ficha demorou a cair. Primeiro me senti impotente porque demorei para entender que eu estava sofrendo um racismo, nunca tive esse tipo de discriminação e nunca havia passado por isso, cheguei a me questionar se eu tinha feito alguma coisa de errado, se estávamos mal vestidas, sujas, mas estávamos limpas, cheirosas e com roupas de grifes.
Depois me questionei, por quê? mas com o tempo caguei um balde. Mesmo sendo adolescente, graças a Deus, isso não me atingiu, mas não esqueci dessa situação inconveniente e acredite, nunca mais tive vontade de voltar à Frankfurt, mesmo conhecendo depois alemães maravilhosos que foram pessoas queridas. Eu realmente impliquei com a cidade, que por sinal é muito bonita.
Se eu passei por isso e nunca esqueci, fico imaginando quem sofre o racismo quase que diariamente seja por olhares ou verbalmente. É realmente lamentável. Sinto muitíssimo por esses seres humanos tão pouco evoluídos que fazem distinção de cor.
Outro racismo duro que sofri, foi recente e aqui no Brasil acredita? Por uma mulher que nem me conhecia, mas que tinha um recalque enorme por questões pessoais que não vale a pena mencionar aqui. Há alguns anos atrás, soube que ela se referia à mim como "aquela preta", em um tom pejorativo. Em dado momento perguntei para a pessoa que me contou, se essa mulher estava tentando me xingar? Porque não estava conseguindo, sou muito bem resolvida com a minha cor.
Na época, até pensei em gerar um fuzuê e arrumar um processo, mas por ser quem era, na ocasião, não valia a pena e poderia causar dor para outra pessoa que temos em comum a qual gosto demais. Minha reação foi sentir pena dessa mulher e deixei para lá.
Na linha 50 tons de morena, passei por três situações muito parecidas nos E.U.A. que também foi relacionada a questão da minha raça, mas dessas vezes não senti um racismo, achei que foi apenas curiosidade dos meus amigos gringos. Como falei anteriormente no exterior sempre me perguntavam qual era a minha cor de pele.
Morei na Califórnia, duas vezes, a primeira em Los Angeles, onde fiquei quase oito meses. Lá eu tive dois amigos diferentes que perguntaram qual era a minha raça. O primeiro era americano e ele me conheceu bem morena, mas no inverno californiano, perdi a minha cor muito rápido e acho que ele ficou um pouco confuso com a minha rápida mudança de cor.
A outra pessoa, foi uma amiga chilena. O que causou dúvida nela foi porque eu andava com os brancos e com os pretos, frequentava todas as festas. Infelizmente nos anos 90 na Califórnia era muito comum os brancos e os pretos andarem separados, moravam inclusive em bairros diferentes. Como uma boa brasileira, o meu grupo de amigos era muito diversificado e isso causava dúvidas visto a minha variação de cor de pele.
Na segunda vez que morei nos E.U.A. fui fazer um curso na Universidade de Berkeley e lá fiquei por quase quatro meses, conheci um grupo de brasileiros e eu andava muito com um amigo preto que era capoeirista e eu fazia capoeira. Um belo dia um amigo turco que estudava comigo, me questionou porque eu andava com esse meu amigo se eu era branca, e me perguntou, "você é branca não é?"
Tenho orgulho em dizer que em todas as vezes que me fizeram a pergunta, "você é branca ou preta?" respondi "whathever you want!" ( O você que preferir!). Apesar de respeitar a história de cada raça e saber muito bem a importância histórica disso, nunca me incomodei com a cor de pele de ninguém porque tenho orgulho de dizer que para mim, isso não importa!
Sou latina com muito prazer, amo ser uma viralata cheia de mistura de raças. E repito! O racismo é brega, ultrapassado e muito cafona! Abaixo o racismo!

Image byrawpixel.com
Quero aproveitar para te fazer um convite. Olha que coincidência! Antes dos últimos acontecimentos que colocou essa luta em evidência, gravei um vídeo para o canal que vou postar na próxima quinta-feira onde eu falo sobre a minha dificuldade de encontrar base de rosto por conta das minhas mudanças de cor, uma prova da minha brasileirice, mostro os meu 50 tons de morena. Está convidada, aproveita e vai conhecer o meu canal Wanja Leite! Curta e inscreva-se!
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